sábado, 7 de maio de 2011

Carlos Rodrigues Brandão - "A felicidade está na maneira simples de levarmos a vida."

“O pódio tem três
lugares – ouro, prata
e bronze – mas o mundo,
a vida, é muito
mais que isso”


Cientista social, antropólogo e psicólogo Carlos Rodrigues Brandão:
"a felicidade está na maneira simples de se levar a vida"
Sim, é possível construir outro mundo, humano, solidário e fraterno. Esse novo mundo há de ser obra de cada um de nós, individual e coletivamente. Com base nestas “duas verdades inabaláveis”, sob os olhares atentos de cerca de 100 jovens e alguns quarentões, como eu, o cientista social, antropólogo e psicólogo Carlos Rodrigues Brandão nos encantou a todos com sua conferência sobre “A sociedade de queremos”, na noite de sexta-feira, 06 de maio, na sede da Casa da Juventude Pe. Burnier, Setor Universitário, em Goiânia.


Na palestra, de aproximadamente uma hora, o professor afirmou que, apesar de todas as contradições do mundo, “talvez tenhamos chegado à era da consciência”. Seria uma era de paz, concórdia, na qual o ser humano se abre para a compreensão de si mesmo, “em dimensões inimagináveis”. Citando estudos do jesuíta francês Teillard de Chardin, afirmou que enquanto a realidade parece apontar para o apocalipse, nossa Terra iluminada se espiritualizará.
De um lado, o mundo regido pelo medo, pela violência, pela necessidade de nos fecharmos em nossos cantos e recantos, “numa crescente inconsciência”. De outro, a alternativa de humanidade solidária, aberta ao socialismo no sentido cristão.


Jovens, atentos ao debate sobre uma outra sociedade possível...


...mais humana, solidária e fraterna.


Para Brandão as nações se armam e fazem guerras não movidas pelo ódio, mas por medo. Para explicar a sua tese, citou Buraco Branco do Tempo. O filme demonstra que o oposto da paz e do amor não é o ódio, mas exatamente o medo. E afirma que seriam necessários 780 bilhões de dólares para tornar o mundo totalmente sustentável e solidário, livre da miséria, com desigualdades suportáveis, doenças erradicadas e atendimento de qualidade a todos – o que seria impossível. “Mas o quê dizer do 1 trilhão de dólares gastos somente em armas?”, questionou o psicólogo.

Brandão: "Nações gastam US$ 1 trilhão em armas, enquanto
US$ 780 bi tornariam o mundo livre da miséria e das desigualdades sociais".

Acerca do papel da escola, criticou a ênfase que se dá à formação tecnicista em detrimento do conhecimento e, especialmente, da convivência. “Somos felizes com o outro”. O educador foi duro com aquelas pessoas que estudam não pensando em contribuir para uma humanidade melhor, mas pensando apenas em um salário bom, a qualquer custo. “Se vende a alma, o talento, a vocação”.
Carlos Brandão é convicto da necessidade de substituirmos a sociedade do consumo, do culto ao sucesso, da competição, por outra que valorize projetos de colaboração e o amor. “O pódio tem três lugares – ouro, prata e bronze – mas o mundo, a vida é muito mais que isso”, enfatizou.

Carlos Brandão: defesa de projetos de colaboração e amor.

Para o antropólogo, a felicidade está na maneira simples de levarmos a vida. “É preciso criar uma vida sustentada estritamente pelo essencial, uma simplicidade voluntária e transformar isso em vida interior, em saber”. Essa vida de qualidade estaria na redescoberta do diálogo com o outro, na experiência da economia solidária, tendo claro que “a primeira troca da economia solidária é a troca de afeto, de amor”. E não a economia tradicional, baseada exclusivamente na necessidade de se aferir lucro.
Essa nova era seria pautada não apenas pela garantia de direitos formais/legais, mas em nosso papel enquanto “sujeitos de poder”. Esse poder originado em cada um de nós – muito maior do que o de governos que recebem da população outorgas provisórias – estaria concretizado em nossa capacidade de união em torno de um objetivo comum, a construção de uma vida solidária.
Carlos Brandão reconhece que tornar essa tese uma realidade é algo muito difícil. “Mas toda mudança é difícil”, concluiu.
Participação qualificada
Após a palestra foi aberta a palavra aos jovens presentes. Carolina, Capoeirista de Angola, ressaltou a importância da “corporalidade”, do toque, como forma de se romper a barreira da individualidade. “Não basta que falemos, a solidariedade é algo que precisa ser sentido”, ensinou.

Carolina: "A solidariedade precisa ser sentida".
 
A educadora popular Ângela Cristina criticou o papel da universidade que pouco trabalha referências intelectuais como o sociólogo Florestan Fernandes e o pedagogo Paulo Freire. E enfatizou a importância da unidade de ação entre aqueles que acreditam na construção de um outro mundo possível. “Mas como construir essa unidade?”, questionou.

Ângela Cristina: "Como construir a unidade na luta?"

Ana Laura, acadêmica de direito.

Jovens do Núcleo de Assessoria Jurídica Popular (NAJUP) também participaram do debate. Expressaram que compõem uma minoria (no mundo do direito) que resiste e atua na defesa de direitos de excluídos da sociedade.
Jovens do Núcleo de Assessoria Jurídica Popular.

O grupo Ponta de Pedra animou o evento apresentando
músicas com o ritmo “côco”, tradicional no nordeste brasileiro.

A abertura do seminário foi feita por Alessandra Miranda,
da Área Sócio Política da Casa da Juventude Pe. Burnier.
Cláudia Lima, do Instituto Marista de Solidariedade;
e André Silva, da Rede Cidadã.


Padre Geraldo, da Casa da Juventude Pe. Burnier.

O seminário promovido pela Rede de Educação Cidadã-Goiás, Instituto Marista de Solidariedade (IMS) e Economia Solidária, com o apoio da Casa da Juventude Pe. Burnier (CAJU), prossegue até domingo, 8 de maio. Outras informações podem ser obtidas pelo site http://www.casadajuventude.org.br/ .


CURIOSIDADE E MEMÓRIAS

Mossâmedes
Durante a sua palestra, o professor Carlos Brandão relatou um pouco de sua história e memórias. Contou que nasceu em Mossâmedes-GO, lembrou da vinda para Goiânia, na década de 1960, do convívio com os padres Cristóvam, Dario (ambos ex-reitores da UCG, atual PUC), Palacin e Pereira. “Com Dom Tomás Balduíno nos idos da ditadura militar, acompanhamos a luta de trabalhadores camponeses na região norte de Goiás”.

Professor Carlos Brandão e Alessandra Miranda.

Wiphala, símbolo da paz
Estudioso, o professou nos ensinou o significado da bandeira que coloria o ambiente onde proferiu a palestra. Denominada Wiphala, foi descoberta dos Incas Aymara. Tornou-se símbolo latino-americano da paz. “Não dessa paz efêmera, mas de uma paz construída por nós”.
Wiphala: bandeira colorida, ao fundo: símbolo da paz na América Latina.

PERFIL/Carlos Rodrigues Brandão

  • Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1965);
  • Mestrado em Antropologia pela Universidade de Brasília (1974);
  • Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1980);
  • Pós-doutorado nas universidades de Perugia e Santiago de Compostela (1992).
  • Professor titular aposentado da Universidade Estadual de Campinas.
  • Professor do corpo docente do Doutorado em Ambiente e Sociedade do NEPAM/IFCH da UNICAMP.
  • Professor convidado da Universidade de Uberaba, do Departamento de Ciências Florestais da ESALQ/USP, em Piracicaba, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás e do Instituto de Geografia da Universidade de Uberlândia;
  • Pesquisador-visitante do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social da Universidade Estadual de Montes Claros;
  • Pesquisa de campo em comunidades tradicionais ribeirinhas do rio São Franciso
  • Experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia Rural, Antropologia da Religião e Antropologia e Ambiente, temas: cultura, cultura popular, educacao popular, educação ambiental.

ALGUMAS ENTIDADES E AUTORIDADES REPRESENTADAS NA ABERTURA DO SEMINÁRIO
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§  Instituto Marista de Solidariedade
§  Rede Cidadã
§  Núcleo de Assessoria Jurídica Popular (NAJUP)
§  Forum Goiano de Saúde Mental
§  Art. Educ. Popular de Saúde
§  Comitê pelo Fim da Violência Policial
§  Coletivo Jovem pelo Meio Ambiente
§  Universidade Católica de Brasília
§  Mandato Popular da deputada federal Marina Sant´Anna (PT-GO)
§  Mandato do deputado estadual Karlos Cabral (PT-GO)




Cláudio Marques Duarte
62  8543 3293
Twitter: @claudio_mduarte
Facebook: claudiomduarte

10 comentários:

  1. Boa a crítica sobre os que trocam o talento e a vocação por oportunidades que signifiquem só dinheiro. Muita felicidade se perde por isso.

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  2. Obrigado pelo comentário, Regina. Uma outra observação que faço diz respeito a uma suposta obrigação de competirmos o tempo todo, como se não fosse possível equilibrar momento de disputa, especialmente a salutar, com o que, a meu ver, deve permear a nossa vida: a necessidade de construirmos laços de amizade, amor, solidariedade, acima de tudo.

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  3. Geraldo M.L. Nascimento, sj15 de maio de 2011 08:49

    Parabens, Claudio, gostei de sua sintese sobre a palestra do Carlos Brandão. Valeu companheiro. Grande abraço. Obrigado por todo o apoio que vcs tem nos dado. Pe. Geraldo

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  4. Valeu, Padre amigo! Eu é que agradeço a feliz oportunidade de ter participado da palestra. O senhor é mesmo um grande timoneiro deste barco chamado CAJU!

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  5. Oi Claudio,
    Lega sua presença consco, assim como a sintese que fez da fala do Brandão. A percepção de que um outro mundo já acontece nos anima e impusiona.

    Abraços solidários!

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  6. Caro Cláudio Marques, parabéns por compartilhar conosco esta atividade com o Professor Brandão. No próximo dia 10 de junho Carlos Rodrigues Brandão estará participando conosco do III Fórum de Educação da Região do Araguaia em Conceição do Araguaia-PÁ, o seu relato nos enchem de expectativa e alegrias. Viva o mundo novo defendido por Brandão.
    Prof. Jader

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  7. Obrigado, Alessandra e Professor Jader. Um outro mundo é possível e já acontece em muitos lugares do nosso Planeta Azul, Terra, Água, Fogo e Ar. Vamo que vamo.

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  8. Ola Claudio,
    Muito bom ler todas estas informaçoes. Hoje a tarde, estive na livraria da Vila em SP com meus filhos, e tive a alegria de encontrar o livrro de Manoel de Barros - Exercicios de ser criança- e o texto final - belissimo era de Carlos Rodrigues Brandao. Que eu nao conhecia. Dar um google em seu nome me levou ate aqui. E te digo, que eu como mae de tres filhos, educadora em tempo integral, me emocionei com o que li aqui. Incrivel, que apesar de nao conhecer nem Manoel de Barros, nem Carlos Rodrigues Brandao, o pouco que li sobre eles, me encantam e me motivam, pois estao de acordo ao que penso e acredito. Estarei compartilhando este post em meu blog, para que mais pais e maes possam se inspirar nestes pensamentos. Obrigada por compartilhar.
    Biba Arruda Marques www.euaprendoenquantoensino.blogspot.com

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  9. Parabéns a todos pelo evento. Realmente o prof. Carlos Rodrigues Brandão é um grande conhecedor e possui muita humildade. Tive o privilégio de ser seu aluno no Doutorado em geografia na Universidade Federal de Uberlândia em 2011. Ele é sensacional. Abraços a todos, Aires José Pereira

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  10. Parabéns a todos pelo evento. Realmente o prof. Carlos Rodrigues Brandão é um grande conhecedor e possui muita humildade. Tive o privilégio de ser seu aluno no Doutorado em geografia na Universidade Federal de Uberlândia em 2011. Ele é sensacional. Abraços a todos, Aires José Pereira

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